Inspirado na obra de Augusto do Anjos...
Recife,2007
AS CISMAS DO DESTINO
Recife, Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direcção á casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!
Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia...0 calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.
Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!
A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Cala um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!
Tal uma hórda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com á bocca aberta,
A matilha espantada dos instinctos!
Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revôlta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o bérro da animalidade.
Mas, a irritar-me os globos oculares,
Apregoando e alardeando a cor nojenta,
Fetos magros, ainda na placenta,
Estendiam-me as mãos rudimentares!
Mostravam-me o apriorismo incognoscível
Dessa fatalidade igualitária,
Que fez minha família originária
Do antro daquela fábrica terrível!
E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, á luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo á noite os homens do Futuro.
A corrente atmosférica mais forte
Zunia. E, na ígnea crosta do Cruzeiro,
Julgava eu ver o fúnebre candieiro
Que há de me alumiar na hora da morte.
A vingança dos mundos astronômicos
Enviava á terra extraordinária faca,
Posta em rija adesão de goma laca
Sobre os meus elementos anatômicos.
Essa obsessão cromática me abate.
Não sei por que me vêm sempre á lembrança
O estômago esfaqueado de uma criança
E um pedaço de víscera escarlate.
Não! Não era o meu cuspo, com certeza
Era a expectoração pútrida e crassa
Dos brônquios pulmonares de uma raça
Que violou as leis da Natureza!
II
Todas as divindades malfazejas,
Siva e Arima, os duendes, o In e os trasgos,
Imitando o barulho dos engasgos,
Davam pancadas no adro das igrejas.
Em tudo, então, meus olhos distinguiram
Da miniatura singular de uma aspa,
À anatomia mínima da caspa,
Embriões de mundos que não progrediram!
Pois quem não vê aí, em qualquer rua,
Com a fina nitidez de um claro jorro,
Na paciência budista do cachorro
A alma embrionária que não continua?!
Ser cachorro! Ganir incompreendidos
Verbos! Querer dizer-nos que não finge,
E a palavra embrulhar-se na laringe,
Escapando-se apenas em latidos!
Tempo viria, em que, daquelle horrendo
Cháos de corpos orgânicos disformes
Rebentariam cérebros enormes,
Como bolhas febris de agua, fervendo!
Prostituição ou outro qualquer nome,
Por tua causa, embora o homem te aceite,
É que as mulheres ruins ficam sem leite
E os meninos sem pai morrem de fome!
Nisto, peor que o remorso do assassino,
Reboou, tal qual, num fundo de caverna,
Numa impressionadora voz interna,
O echo particular do meu Destino:
III
"Homem! por mais que a Idéia desintegres,
Nessas perquisições que não têm pausa,
Jamais, magro homem, saberás a causa
De todos os fenômenos alegres!
...
Adeus! Fica-te ai, com o abdômen largo
A apodrecer!... És poeira, e embalde vibras!
O corvo que comer as tuas fibras
Há de achar nelas um sabor amargo!"
IV
Calou-se a voz. A noite era funesta.
E os queixos, a exhibir trismos damnados,
Eu puxava os cabellos desgrenhados
Como o rei Lear, no meio da floresta!
O mundo resignava-se invertido
Nas forças principais do seu trabalho...
A gravidade era um principio falho,
A análise espectral tinha mentido!
Eu queria correr, ir para o inferno,
Para que, da psyquê no occulto jogo,
Morressem suffocadas pelo fogo
Todas as impressões do mundo externo!
Mas a Terra negava-me o equilíbrio...
Na Natureza, uma mulher de luto
Cantava, espiando as árvores sem fruto.
A canção prostituta do ludibrio!
A. dos Anjos
Recife, 1912
(Less)